terça-feira, abril 28, 2009

memória mínima


Grande parte da minha infância passei-a na quinta dos meus avós, a correr, a andar de bicicleta, a jogar à bola, a rasgar joelhos, a subir às árvores, a apanhar fruta, a ver o meu avô na garagem de volta das suas mecânicas ou a ver a minha avó a descascar favas e ervilhas. São memórias bem vincadas, quase como se tivessem sido vividas ontem. Há outras memórias que se vão apagando e desfazendo, mas que, graças ao poder do inconsciente, conseguimos reavê-las, nem que seja num formato mínimo. Ontem aconteceu-me isso, e soube bem. Vi esta imagem e fiquei vidrado nela. O cérebro começou a remexer, a pesquisar, e veio-me à cabeça uma memória que eu já julgava extinta. Nos dias em que chegava bastante cedo aos meus avós, e esperava pelos meus primos, ligava-me à minha amiga colorida com esperança de ver alguns desenhos animados. Infelizmente era cedo demais para desenhos animados...ou outra coisa qualquer. Então limitava-me a olhar para esta imagem. E olhava e olhava e olhava, até que começava a fazer jogos com ela. Lembro-me de escolher uma barra de cor, e imaginava-me a virá-la e a ver o que estava por trás. Uma espécie de "quantos-queres" interactivo. Talvez fosse a moca do sono, talvez fosse a imaginação fresquinha pela manhã, o que é certo é que aquilo era divertido à brava. Depois acabava-se tudo e vinham os desenhos animados. E depois dos desenhos animados vinham os meus primos. E isso é que era bom.

terça-feira, abril 21, 2009

red alert

Se há coisas que eu gosto de recordar da escola primária são: o elogio da professora aos meus desenhos; mexer na plasticina; jogar ao berlinde no recreio; fazer ditados; ouvir o Hélder a ler um texto...e a pontuação ("o João foi à escola vírgula e fez uma composição ponto final parágrafo"). Se há coisas que eu não gosto de recordar da escola primária são: os puxões de orelhas da professora; ir ao quadro; pedir à professora para ir à casa-de-banho; levar porrada no recreio; não poder escrever com tinta vermelha. Sempre achei esta última a maior parvoíce de todas... não porque não faça sentido, porque até faz, visto que o vermelho é a cor com que os professores (geralmente) corrigem os ditados, composições, cópias, exercícios e por aí a fora. O que me irrita é que a malta adulta nos dizia que não podiamos escrever a vermelho porque significava que estavamos a mandar a pessoa à merda. Era expressamente proíbido escrever com tinta vermelha, pois seria uma ofensa para a professora. Por causa desta piadinha de mau gosto por parte dos adultos, lembro-me de sofrer horrores cada vez que utilizava a tinta vermelha em mais de uma linha seguida! Os colegas do lado olhavam, avisavam-me que eu não podia, que iria ser expulso da escola, ser julgado e punido com vários castigos, e talvez chegasse à pena de morte. É claro, eu lá me assustava e toca de apagar com a borrachinha azul (especial para canetas e que arranhava tipo cimento). Agora que olho para trás, gostava de ter escrito mais a vermelho, isto porque há sempre alguém que merece ir à merda.

quarta-feira, março 11, 2009

adeus tio

Sempre me considerei um sortudo em ter uma família como a minha. Somos amigos, somos unidos, somos família como todas deveriam ser. Sempre achei que fossemos intocáveis, perfeitos e felizes. O ideal de família foi-me transmitido da melhor maneira pelas melhores pessoas. Crescer e aprender com eles fazem de mim a pessoa que sou. E estou grato por isso. Amo os meus primos, amo os meus tios e tias, amo os meus pais, irmã e avós. Hoje foi um dia triste. Mais uma despedida precipitada. E isso dói que se farta. Dói a valer. Perder um pilar da família é dos sentimentos mais estranhos que posso ter. A família feliz, amiga, unida, intocável é abalada pela lei da vida. Sabemos que é assim. As pessoas nascem para morrer. Tudo bem, aceito. O que me fode a cabeça é perder um tio tão novo. E o que me fode ainda mais a cabeça é que não podemos fazer absolutamente nada contra isso. Sabemos da notícia e resta-nos esperar. E durante esta espera desesperamos. Ele está ali...mas já não o olhamos normalmente. Olhamos já com saudade. Com uma tristeza gigantesca. Com esperança. (In)felizmente esta espera, apesar de dolorosa, foi rápida. E o tio Luís já não volta. E a família fica mais pobre. Uma pessoa com um enorme coração, humilde, prestável, lutador, Amigo. Uma pessoa especial para nós. Para mim. Lá se vão os calduços na careca do Padreco, lá se vão as amoras do Picha Gorda, lá se vão as massagens nas nossas orelhas do tio Luís. E que saudades que vou sentir tuas...

"A amizade não se faz...constrói-se"
"Devagarinho aos remos que o mar está encrespado"

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

projecto falhado

Numa era onde a velocidade é tudo, o mundo também se apressa a acabar. O fim do mundo está assustadoramente mais perto, e depois de tantas e tantas vírgulas o ponto final chegará. Com isto podemos concluir que: Ou Deus se reforma e tem como destino um universo paradisíaco, ou declara falência, visto que a clientela acabou...de vez.
Outro que vai ter que encerrar actividade é o desgraçado do Diabo. Apesar de provavelmente ter a maior enchente de sempre (o que poderia ser positivo a nível de lucros) não vai conseguir dar conta do recado. Tem duas hipóteses então: ou o Diabo continua com merdas sadomasoquistas e castigos às pobres almas, ou aproveita a maré de gente e organiza um festival do caralho...todos os dias.
A Terra ficará deserta de almas, com corpos a apodrecer, à espera que milhões e milhões de anos passem até que nasça uma nova espécie, mais inteligente, mais humilde e melhor que a nossa.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

true romance

A todos os que ainda duvidam, sim, estou muito apaixonado, feliz, cheio de novos objectivos, determinado, com força, motivado, com vontade de viver. Não estou hipnotizado ou algo do género, estou consciente e com os pés bem assentes na terra. É isto que eu quero. Viver, amar, partilhar e procriar com a minha melhor amiga. A pessoa que melhor me entende, que me ouve, que me ama, que se ri comigo, que está do meu lado e ao meu lado. Mudei, estou diferente? Não, nada disso. O mesmo Boteta que ama os amigos continua aqui. Sempre. Apenas estou mais empenhado em mim e na minha felicidade. Sei que um dia irão fazer o mesmo, por isso espero que estejam felizes por mim...aos que não estão, fodei-vos e até à vista.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Quinta-feira, 20 de Novembro, 2003

Mais um dia pela frente. Acordo mal disposto, irritado por me levantar cedo da cama, e porque vou ter de ir até à faculdade. Os dias estão frios e a vontade é pouca ou nenhuma. Vamos Ricardo, tem de ser, força nessas pernas. Levanto-me meio zombie, digo bom dia à minha mãe, que anda nas suas tarefas há mais de um par de horas, vou até à casa de banho e lá vai a primeira urina do dia. Sabe bem e arrepia a pele. Meia volta ao carrossel, e volto ao quarto para despir o belo do pijama e preparar a fatiota de hoje. Já meio despido vou até à banheira. Água gelada a correr, à espera que aqueça. O telefone toca. A minha mãe atende. A minha mãe entra em pânico. A minha mãe chora. Quando chego perto da minha mãe, já estava à espera do que ela me ia dizer: "o avô morreu". Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Bato um novo record de tempo a vestir a roupa, pego no carro e sigo com a minha mãe até à quinta. Dentro de mim ainda há esperança, pode estar desmaiado ou inconsciente, e a minha avó assustou-se só isso. Chego à quinta, corremos pela casa a dentro em direcção ao quarto. Eu fico para trás. Sou bloqueado pelo medo da verdade. Rejeito a morte do meu avô. Fico à espera. São apenas segundos, mas parecem uma eternidade...silêncio...silêncio...de repente gritos e lágrimas vindos do quarto. Vou até à sala, sento-me e choro. Lágrimas, lágrimas, lágrimas. O chão fica molhado. A familia vai chegando, lágrimas juntam-se a lágrimas. O cenário vai acalmando, as pessoas vão lá fora apanhar ar, respirar, ganhar alguma força. Dentro de casa, eu e o meu avô. Ganho coragem, chegou a hora da minha confirmação. Entro no quarto, o meu peito é esmagado, as lágrimas param de sair. Sento-me ao lado dele e dou-lhe a mão. Está fria e pesada. Olho para ele, admiro-o, revejo-me nele, despeço-me. Adeus Nandinho, vou continuar a minha vida :)

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2003, o pior dia da minha vida.

segunda-feira, novembro 17, 2008

actos perturbantes e perdurantes

Existem actos que fazem parte de nós, que nos acompanham todo o dia, que estão sempre cá e não damos por eles. São actos intuitivos e naturais que se tornam stressantes quando pensamos neles. O piscar de olhos, o respirar, o engolir de saliva, os passos que damos, o mastigar, entre outros. Actos constantes e incontornáveis, que à mínima atenção se tornam irritantes. Se pensarmos que estamos a respirar pelo nariz, e que existe um barulhinho do ar a passar nos pelos das narinas, ficamos bem atentos, e só conseguimos ouvir esse assobio nasal. O engolir de saliva, outro prato do dia, também se torna insuportável. Ficamos com a mente paralisada e focada no tempo que vai duma engolidela até à outra. Deixamos o auto-piloto de parte e tomamos nós conta da situação: "está quase, já tenho saliva suficiente na boca...e...cá vai ela para baixo". Isto prova que o nosso corpo funciona muito bem sozinho, e que a racionalidade pode muito bem estar quieta, pois só vai atrapalhar neste processo. Detesto quando isto acontece, porque fico com o pensamento bloqueado. É o caso do clicar do rato...tic tic...tic...tic tic tic....tic...não páro de pensar neste barulhinho irritante!

As coisas que me surgem numa segunda-feira mole como a merda...

sexta-feira, outubro 24, 2008

1983-2008



A morte é algo verdadeiramente assustador. A pessoa desaparece e resta-nos a memória. As imagens que tinhamos dela, os momentos que passamos com elas são recordados vezes sem conta. Choramos porque não podemos repetir a dose. É algo frustrante para o Homem, porque temos esta necessidade de ir sempre mais longe e roçar o impossível, e com a morte não temos a mínima hipotese. Choro cada vez que penso no meu avô. Mas fico feliz por isso. Era o meu avô, e o meu avô era uma grande pessoa. A ti Nandinho, obrigado. Obrigado por seres um avô daqueles a sério. Orgulho-me disso, e podes ter a certeza que o teu lugar aqui no meu coração, não será trespassado. Não penso muito na minha morte, porque acho uma perda de tempo. Já vivemos tão pouco, que merda por merda, mais vale pensar na vida e na luta pela felicidade. Um bem haja com sabor a sushi.

ps:não morri.

segunda-feira, outubro 20, 2008

terça-feira, outubro 14, 2008

Happiness

felicidade: do Lat. felicitate
s. f.,
ventura;
bem-estar;
contentamento;
bom resultado, bom êxito;
dita;
qualidade ou estado de quem é feliz.

Todos nós temos inúmeros objectivos neste curto espaço de tempo em que andamos a pisar o planeta terra, mas existe um que é geral: Ser feliz. A felicidade apresenta-se das mais variadas maneiras. Por vezes dura uns segundos, uma tarde, alguns dias. São pequenos momentos em que nos sentimos bem, confiantes, inatingiveis. Felizmente, tenho tido uma vida repleta de felicidade. Acho mesmo que sou uma pessoa com muita sorte...ou pelo menos faço por isso. Sinto-me um iman de felicidade, mesmo que esteja num buraco muito escuro e frio. Gosto de mim por isso. O ser feliz é algo que todos queremos, mas sabemos que nunca vai existir um momento em que tudo vai passar a ser cor de rosa. Acho que a felicidade se vai construindo ao longo dos dias, e o ser feliz passa essencialmente por isso. Partilhar emoções, inspirar boa disposição, sorrir e sentirmos paz interior. Ultimamente tenho lutado por essa felicidade, e finalmente consegui. Ontem foi um dia bom para mim, um dia de viragem. Sinto-me muito feliz. Sou feliz por fazer alguém feliz, e porque sei que alguém me quer ver feliz. E isso sabe bem pra caraças :)

domingo, julho 13, 2008

cobaias paridas

Mães de todo o mundo, tomem atenção porque só escrevo isto uma vez: Vestir os filhos de igual não é coisa fofinha de se fazer. Além de ter um nível altamente bimbo, é um acto potenciador de criar e alimentar problemas mentais, a curto e longo prazo, nas pobres crianças. Infelizmente passei por isto, mas como tento sempre tirar o lado positivo das coisas, sei que rebento meu não vai ser trajado de forma igual ao irmão. Portanto, desde já, agradeço aos meus pais por tal experiência. E como este é um assunto que me custa falar deixo-vos com esta desgraça...


terça-feira, julho 08, 2008

mudez de vez

Ontem vi um casal de mudos a comunicarem, e em vez de pensar "ai coitadinhos que não falam", pensei: "ai que era tão bom que mais pessoas fossem mudas". Gostava mesmo. Um mundo mudo, onde a hipocrisia, mentira, interesse, cobardia e parvoeira em geral eram censurados através da mudez. Sim, podiam queixar-se da vida triste que levam, podiam criticar as pessoas, podiam insultar o próximo, mas o bom é que ninguém as ouvia. No máximo viamos pessoas a bracejar por todo o lado, e isso tinha piada. Imaginem que alguém vos quer fazer a vida negra, que é mesquinho, que vos queria deitar abaixo com algum discurso...não o fazia! Aproximava-se de vocês a transbordar raiva e começava a espernear e a bracejar, a abrir a boca e a tentar falar, no entanto restava-nos perguntar: "desculpe? quer dizer alguma coisa? non comprendo amigo. Adeusinho". Perfeito!...Por outro lado tudo isto se transformava num mundo de mimos revoltados...o que não era má ideia. Sempre aliviávamos o stress nalguma coisa.

sábado, junho 14, 2008

Our memory defeats us all

Acordei bem disposto. Normalmente acordo bem disposto. Deveria-me sentir culpado por acordar bem disposto? Normalmente não, mas visto que os últimos tempos não têm sido normais devia acordar pouco bem disposto. Com algum sentimento de culpa, deprimido, peso na consciência, sentir-me a pior pessoa do mundo...mas não. Desculpem, isso comigo não resulta. Errei? Sim. Culpado? Sim. Sentimento de culpa para o resto da vida? Não. Isto porque me conheço suficientemente bem, e sei que não consigo ficar mal comigo mesmo. Gosto demasiado de mim para isso. Com os outros sou demasiado bruto e decisivo a resolver as coisas. Não consigo ter paciência, não consigo confortar a pessoa, não tenho jeito, não tenho "muito coração". Peço desculpa. Não devia ser assim, mas é. É incrível ver como tenho a mesma força para me ligar e desligar das pessoas. Sempre achei que iria ser uma pessoa a transbordar de sentimentos e que as coisas más me deixariam num estado deprimente, à beira do abismo, mas estava enganado ao que parece. Lido demasiado bem com as desgraças, fico indiferente em muitos aspectos, e limito-me a aceitar as coisas tal como elas são. O mundo é fodido. É assim, é assim, ponto final. Pronto, também não sou assim tão seco...existem sempre as memórias, que nos vão fazendo tropeçar nas nossas decisões... mas vamos lá por os pés na terra. As memórias são passado, servem de base de dados à nossa vida, são autênticos álbuns de fotografias que podemos consultar quando quisermos e dar um sorriso, porque afinal de contas o passado serve só para isso: para nos rirmos do melhor e do pior que passou. O mal está em insistir no viver dessas memórias, e no viver do passado. O passado é um círculo e não permite progresso, enquanto o presente é uma linha aberta, e só a temos de seguir, em frente se possível. O futuro...bem, esse é sempre incerto e nunca devemos tentar andar mais rápido do que ele. Um dia de cada vez, com calma, vivê-lo, para chegar ao fim do dia e sorrirmos por o termos aproveitado. E no dia seguinte, acordar bem disposto. De alegria raiou o dia.

quarta-feira, março 19, 2008

sábado, outubro 20, 2007

Fatinha, a Vossa Senhora

Ora vamos lá colocar o dedo na ferida.

Quem foi o cabrão que a 13 de Maio de 1917 resolveu enganar três pastorinhos ? É que esta história de enganar putos analfabetos, ignorantes e labregos tem mesmo muita piada, mas não seria de esperar que esta bola de neve toda, recheada de aparições, milagres e "virges marias", chegasse onde chegou. Na altura não havia televisão, logo os serões nestas belas localidades eram ocupados ou a procriar, ou a pregar cagaços a crianças com buço no meio do monte. É claro que a primeira opção sempre foi a mais concorrida, mas também é verdade que a tal aparição aconteceu. Logo só existe uma explicação: Quem é que fez votos de celibato e não tem ninguém em casa onde vazar as suas sementes? Quem é que gosta de observar criancinhas inocentes? Quem é que iria ganhar com tudo isto? Ah pois é, o senhor padre da aldeia! Reconstituindo: Este saiu da pequena capela, num fim de tarde agradável, desanimado com a pouca afluência de cristãos na sua paróquia. Dirigiu-se então à tasca do Quim para beber a sua habitual mistura tinta. Tenta desabafar com o taberneiro, mas este quer é fechar a tasca porque hoje (e todos os dias) é dia de...procriação! O padre é varrido da tasca e caminha a passos curtos para casa. Pensativo, deprimido e abatido leva com mais uma chapada mental: lembra-se que não tem ninguém em casa para falar. É então que resolve fugir daquela aldeia, que transborda orgasmos por todas as casas, e corre até ao monte na esperança de falar com o seu Namoradinho. Senta-se numas pedras, pousa a lamparina, olha para o céu e questiona-se sobre a sua vida. Atira uns quantos avés marias e uns pais nossos pr'o ar, e nisto ouve criancinhas a passearem as ovelhas para a cagadela diária. O padre fica excitado, esconde-se atrás dum eucalipto e observa os três petizes. Estes riam, cantavam e brincavam apesar das evidentes dificuldades. Quanto ao padre, fechou os olhos a estes pormenores e focava-se agora nas perninhas arranhadas das crianças, unhas bem crescidas e surradas, buços frágeis e dentes cor-de-bosta-de-ovelha. Olha para o céu, pede perdão ao Mister lá de cima, e toca de meter a mão dentro das cuecas. Os seus olhos focavam as inocentes presas, o suor corria-lhe pela testa e a mão (que não estava ocupada) arranhou de prazer o eucalipto...sabe-se lá porquê, talvez obra do Senhor, caiu um daqueles frutos dos eucaliptos na cabeça do padre. Este ficou paralisado, chocado e envergonhado consigo próprio. Afinal o Manda-chuva não o tinha perdoado! Numa tentativa de remediar o sucedido, trepa ao eucaplito com a lamparina, coloca o seu lenço branco do ranho com iniciais bordadas, na cabeça (na esperança de não ser reconhecido) e grita aos pastorinhos: "Meus filhos, o Senhor alertou-me e...bem...tenho um segredinho para vos contar". Os putos berraram e correram a sete pés dali para fora, e foram fazer queixinhas aos pais que nesta altura já estavam na ressaca pós-queca: "Nós vimos, nós vimos um fantasma no céu, que brilhava muito, estava vestido de branco e tinha segredos para nos contar!!!".
Moral da história: a Fatinha é fixe e os campónios serão sempre campónios.

domingo, outubro 07, 2007

porque sim

Apetece-me escrever. Cá vai disto.

Mais uma noite a queimar pestanas de maneira inútil. Dou umas palavrinhas com amigos ao som de Seu Jorge, nas suas studio sessions do "the life aquatic". Lamechas ou não, é o tipo de música que me faz parar e pensar. E quando paralisamos e pensamos é bom. O sentido da vida, a imensidão do espaço, a nossa auto-pseudo-depressãozita que anda ali escondida, o bem estar, a puta da ansiedade...falta o copo cheio de alguma coisa que arda na garganta, para este momento que é mágico, pessoal e intransmissivel estar completo. Disseram-me uma vez que a minha felicidade era coisa de se invejar. Senti-me feliz por isso. A morte apesar de ser dolorosa para quem fica, é natural e como tal, tem de ser levada...naturalmente. Aposto que Jesus até era um gajo porreiro. É pena que a imagem do fulano tenha sido manchada por esta campanha sensasionalista católica que dura há anos. Para quem não sabe fui baptizado, mas isso para mim é como levar com merda de pombo no ombro...aconteceu e pronto, há que seguir caminho. Se há pessoa de que eu gosto é de mim. E no outro dia concluí que não tenho inimigos...isto é, na minha lista pessoal. Não sei se estou incluido nalguma de outra pessoa. Se estiver não me importo. Também já me chamaram de egoista. Sim, um bocado. Gostava de ter tido mais tempo com certas pessoas que já não voltam, mas pronto, fica a memória. Enquanto essa permanecer tudo bem. A ideia de futuro é parva, porque é utópica. Vivemos no presente e nunca vamos atingir o tal futuro...estúpidos. Ter noção que os dias passam depressa é uma sensação aterradora. O dia de hoje passou e não volta. O dia de hoje, ontem foi futuro e amanhã vai ser passado. Bom, a verdade é que ele passou. E o que interessa é que foi bem passado. E teve um destes momentos de reflexão, num panorama quase perfeito. E isso sabe bem.

terça-feira, setembro 18, 2007

o Xavier tem um brinquedo novo

Ah pois é, ah pois é! Um daqueles objectos que sempre quis ter (mas que foi sendo substituido por outros, devido a prioridades consumistas), foi finalmente adoptado cá para casa! Falo-vos de uma pequena preciosidade, que faz milagres e sorrisos: uma mesa digitalizadora.


Nestes últimos anos tenho andado de olho nalgumas e foi mesmo desta que me convenci a mim próprio. O bicho foi a Bamboo, da Wacom. Tão bonita que já pensei constituir familia com ela...até agora só fizemos este rebentozinho. Não é lá grande desenho, mas mostra algumas das capacidades do meu novo tesourinho. Há dias felizes!

quinta-feira, julho 12, 2007

Mad Caddies

Nunca tive uma banda preferida. No máximo admirava uma ou duas, e estas iam sempre sendo substituidas por outras, e por aí adiante. Teve muito a ver com as descobertas a nível musical que aos poucos eu ia fazendo, e também com o meu estado de espirito (que sofria constantes mutações devido a um fenomeno chamado adolescência). Finalmente mergulho num novo panorama musical, que me abre os olhos. Músicas cheias de força, revolta, critica invadem-me os timpanos e agarro-me a elas como se fossem lições de vida. Neste universo conheço os Mad Caddies. Primeiro estranha-se, depois entranha-se...e de que maneira. A mesma força nos ideais, mas sonoramente diferentes. Diferentes de tudo e todos. O cruzamento entre várias influências, estilos e instrumentos fazem deles a melhor banda do (meu) mundo. Alegres, inimigos do stress, e excelentes festeiros, é com a sonoridade deles que me sinto feliz.
Hoje posso dizer que tenho uma banda preferida, e não me sinto um fan, mas sim um amigo. Se a minha vida fosse um filme a banda sonora era deles com certeza.




terça-feira, julho 03, 2007

Idolos e mascotes

Há idolos e mascotes que duram para sempre...outros não duram mais do que um momento. Ficam esquecidos nos arquivos da história, e de vez em quando lá os vão buscar para a inauguração ou para apoiarem alguma causa. É o caso da Rosa Mota ou do Gil. Este desgraçado foi feliz durante a Expo98...agora tem uma fundação de apoio a crianças e vai envelhecendo nas entradas do parque das nações. A Rosa Mota lá vai aparecendo para inaugurar um campeonato de meia tigela de atletismo, ou para dar a cara por uma causa. O Eusébio, rei do futebol noutros tempos, anda agora a rastejar-se pelos corredores e cantos obscuros do Estádio da Luz. Quando é que é chamado? Quando o Benfica joga contra o Sporting, quando o Benfica vai à liga dos campeões (coisa rara hoje em dia) e quando o Benfica faz anos. Vendo bem as coisas, talvez seja a vida de atleta que é mesmo assim. Um dia campeões, noutro esquecidos. O que me faz mais confusão é o destino que as mascotes levam...O Gil e a Docas, o Strike (o cão castanho do mundial dos estados unidos), o Ciao (aquele bacano com cubos verdes,brancos e vermelhos e uma bola de futebol a fazer de cabeça, do mundial de Itália), a Neve e o Gliz (das olimpiadas de inverno em Turim)...desemprego certamente...muitos entregues às drogas e ao álcool...em caso extremo o suicidio. Quando for grande vou criar uma série de desenhos animados, em que todas as mascotes entram! Todos a morar no mesmo bairro, com histórias bem caricatas, um fartote animado! Não desesperem mascotes, aqui o eu tem a solução!

PS: Quanto ao Eusébio, Rosa Mota e afins, têm de se aguentar à bronca.

sexta-feira, junho 01, 2007

mentalidade portuguesa



"A ilustração representa o povo português e a sua mentalidade. Tenta demonstrar e criticar alguns dos valores nacionais, que continuam bem presentes e a assombrar a cabeça dos portugueses. Portugal continua o país dos Descobrimentos, do fado, de Fátima e do futebol. A sardinha é rainha e o galo de Barcelos é rei...e ainda há espaço para um tal de Salazar (que de morto parece não ter muito). São valores a que nos acostumámos, que foram passando de geração em geração, e que são quase impossiveis de dissociar da imagem de Portugal.
Na ilustração essa mentalidade está representada através de um polvo/cérebro/caveira, que com os seus tentáculos apanha um peixe desprevenido (ou seja, o português). A imagem simboliza a força negativa que esses valores têm (na medida em que não existe evolução), e pretende servir de alerta a todos nós. É tempo de ultrapassar a ideia de que Portugal é só isto. É tempo de acreditar em Portugal como um país criativo, talentoso e ambicioso, no qual existe muito mais do que valores que nos prendem ao passado."


(a minha ilustração para o concurso ilustra_portugal)